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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

CONTO



Sinônimos e antônimos

"exagero • substantivo masculino
ato ou efeito de exagerar(-se);
ampliação, encarecimento qualidade do que é excessivo, demasiado qualquer coisa de valor ou dimensões muito além do normal, do ordinário, do razoável"


Betty sempre foi uma pessoa de exageros. Se amava, fazia-o perdidamente; se odiava, aborrecia-se com a simples presença do desafeto. Quando comia, era sem medida; se percebia que estava acima do peso, iniciava greve de fome. Em suma: nunca foi apresentada à palavra moderação.
Aos 23 anos, o diploma de direito nas mãos era quase uma arma. Não que Betty fosse desprovida de princípios ou de ética. Nada disso; o problema era o excesso deles. Antes mesmo de deixar a faculdade, já havia renunciado à carreira jurídica. "Nada é menos adequado para mim", dizia, convicta de seus limites.
Os pais acreditavam que as posições extremadas deviam-se à imaturidade. Esperavam que a vida a tornasse menos rígida. Mas não tinham motivos para acreditar nisso. Questionada sobre algum tema, Betty nunca hesitava:
- Você tem certeza que quer saber o que eu penso? - perguntava incrédula ao seu interlocutor com uma das sobrancelhas levantadas. Se a resposta fosse "sim", ela despejava, sem a menor cerimônia, o seu ponto de vista.
Era como se a vida de Betty tivesse vindo em tamanho menor do que o da sua alma. Betty não cabia nessa existência e por isso sentia-se desconfortável. Precisava respirar.
Já havia virado os trinta anos quando encontrou Ricardo, por acaso, numa festinha. Quando iniciaram uma conversa, Betty pensou que seria como sempre: um a mais torcendo o nariz para sua sinceridade incontida. Estava errada: as respostas de Betty pareciam divertir Ricardo. Ele padecia do mesmo vício de ser cruelmente verdadeiro. Para Betty, o protótipo do príncipe encantado. Paixão à primeira vista.
Mas namorar alguém tão sincero teve um preço para Betty. A lei do retorno. Com Ricardo ela descobriu o gosto da verdade sem limites: às vezes doce, mas, em geral, com um travo amargo. E, se protestava, Ricardo fazia questão de lembrá-la de suas próprias convicções.
De fato, Betty nunca havia sido confrontada com sua própria atitude. Com Ricardo, passou de sujeito a objeto: suas críticas veementes não surtiam o efeito esperado em Ricardo, ao mesmo tempo em que as palavras contundentes dele deixavam Betty atordoada. Sentia-se pequena, tola, sempre à espera de uma reprimenda, como uma criança acanhada. O sentimento frustrou-a e se sobrepôs à admiração que nutria pelo namorado.
Com o tempo, Betty passou a questionar se a sinceridade seria mesmo um valor absoluto, incontrastável. "De repente, um pouco de civilidade...", ponderava.
- Ricardo, você precisa ser assim, tão ... direto?
- Mas não é você a defensora intransigente da verdade absoluta?
- Sim, mas, sei lá.... acho que há um pouco de exagero nisso.
- Não estou te reconhecendo! - divertia-se Ricardo.
- Sério, Ricardo, às vezes fico imaginando se há virtude em magoar os outros, em exigir que o mundo seja perfeito.
As conversas com Ricardo ficavam cada vez mais incômodas; quanto mais se conheciam, mais se sentiam à vontade para serem eles mesmos... sem limites! Um dia, Betty cansou.
- Ai Ricardo, chega! Não aguento mais!
Brigaram.
Em casa, à noite, Betty admirava fixamente seu peixinho beta no aquário. Separado dos demais por não suportar companhia, era o preferido de Betty, por motivos óbvios. "Está sempre pronto pra briga!", pensava. Mas naquela noite, a figura do peixinho não a acalmou. "Deve haver uma forma de viver pacificamente nesse aquário", perguntava-se.
Levantou-se da cadeira, decidida. Foi ao escritório. Da estante de livros, retirou um grosso e velho dicionário e procurou, ávida, a letra M.

"Moderação
• substantivo feminino
ato ou efeito de moderar(-se) virtude de permanecer na exata medida; comedimento afastamento de todo e qualquer excesso."

- Interessante..... - disse Betty. - Preciso pesquisar outros sinônimos.....
A consulta a acalmou. Guardou o dicionário e foi direto para sua cama. Durante a noite não sonhou com guerras ou conflitos, como era usual. Teve sonhos leves, coloridos.

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